Uso Indiscriminado de
Antimicrobianos e Resistência Microbiana.
A
associação entre o uso de antimicrobianos e o desenvolvimento de resistência
bacteriana é conhecida desde a introdução da penicilina, tendo sido, a partir
de então, sistematicamente confirmada após o lançamento de diversos
representantes de cada uma das diferentes classes farmacológicas.
O período necessário para a ocorrência
desse fenômeno mostrou-se surpreendentemente curto para muitos fármacos,
enfatizando a imensa capacidade de adaptação dos micro-organismos a ambientes
hostis, artificialmente criados pelo homem.
Embora essas observações devessem intuitivamente soar como um sinal de
alerta para a necessidade de se promover emprego terapêutico mais racional desses
insumos, o que tem ocorrido, na verdade, é exatamente o oposto. Em alguns
países, antimicrobianos são utilizados sem receita médica em até dois terços
das ocasiões. Mesmo quando formalmente prescritos, sua indicação pode ser
desnecessária em até 50% dos casos. Não
existem evidências claras sobre as mais importantes causas implicadas nesse
consumo desmedido, mas se acredita que diversos fatores contribuam de forma
crucial, tais como a expectativa do paciente em receber tratamento eficaz, o
tempo cada vez mais exíguo das consultas médicas (demanda elevada e baixa
remuneração), o medo de litígio e as pressões da indústria farmacêutica e dos
planos de saúde (para redução do número de reconsultas e de pedidos de exames
diagnósticos). Além disso, talvez por falta
de informação, muitos profissionais encaram o risco de indução de resistência
como algo essencialmente teórico ou pouco provável.5
O atual texto versa sobre o emprego
ambulatorial de antimicrobianos, onde se concentram 80% do consumo humano. A
promoção do uso racional de antimicrobianos neste contexto é fundamental, já
que infecções causadas por bactérias comunitárias resistentes são de mais
difícil tratamento e se associam a maior morbidade. O crescimento no número de
pacientes imunocomprometidos e com patologias complexas tratados em domicílio
facilita a disseminação na comunidade de bactérias multirresistentes
originárias dos hospitais, fazendo com que as outrora nítidas fronteiras que
separavam o “hospital” da “comunidade” se tornem cada vez mais nebulosas. Nesse
contexto, o uso abusivo de antimicrobianos mantém terreno fértil para
abrigá-las. Há provas, cada vez mais irrefutáveis, de que o mau uso de
antimicrobianos é o principal responsável pela seleção de resistência. Essa
assertiva deve ser introjetada pelo prescritor que trabalha no setor de atenção
primária à saúde, sobretudo porque lida com infecções de menor gravidade, nem
sempre de etiologia bacteriana (por exemplo, infecções respiratórias altas de
origem viral em crianças), que não necessitam de antimicrobianos ou que curam
facilmente com antibióticos mais comuns e com menor potencial de indução de
resistência. A decisão terapêutica sobre eventual prescrição de antibióticos
deve fundamentar-se em real indicação, e a seleção dos mesmos deve levar em
conta os malefícios do emprego inadequado desses fármacos. Algumas estratégias
podem ser úteis para minimizar a seleção de micro-organismos resistentes,
aumentando a vida útil dos antimicrobianos disponíveis. Pelo exposto, fica claro que o principal
fator associado à seleção de resistência bacteriana é o emprego pouco racional
de antimicrobianos. O profissional da saúde que trabalha na assistência deve
manter esse fato em mente. Só se prescrevem antimicrobianos após cuidadosa
revisão de relação custo-benefício. A
educação e a conscientização da população têm papel fundamental para evitar
consumo exagerado, tanto por automedicação quanto por pressões desnecessárias
sobre os profissionais da saúde. Entidades governamentais e mídia constituem
peça-chave nesse processo educacional. Por último, a indústria farmacêutica
deveria voltar a investir no desenvolvimento de novos agentes, de preferência
realmente inovadores, que trouxessem, por meio de mecanismos de ação originais,
maior espectro de atividade para cobrir micro-organismos com perfis de
resistência cada vez mais complexos. Atualmente, é importante utilizar as
estratégias aqui discutidas que apresentam evidência de benefício, tais como
prescrições por prazos mínimos eficazes, manutenção de certa heterogeneidade de
uso e eventual aplicação de conceitos farmacocinéticos e farmacodinâmicos. Isto
é fundamental para não se perder rapidamente a batalha contra as infecções.
Interações de Medicamentos.
A
longevidade da população mundial é crescente. Com isso, observa-se aumento na
incidência de doenças crônicas degenerativas e consequente incremento no uso de
medicamentos (polifarmácia). O emprego concomitante de múltiplos fármacos
torna-se comum e traz consigo risco elevado de interações entre medicamentos.
Isso pode acarretar efeitos adversos, ou os efeitos terapêuticos dos fármacos
associados podem ser alterados, com consequências graves para a saúde do
paciente. Por
outro lado, as associações de fármacos podem trazer benefício terapêutico em
situações específicas, quando há reforço da eficácia (analgésico não opioide +
analgésico opioide), preservação do efeito de um dos fármacos associados
(anestésico local + simpaticomimético) e redução da resistência microbiana
(esquema tríplice com antituberculosos). Em qualquer circunstância, é
imprescindível o reconhecimento das eventuais interações existentes entre os
medicamentos previamente prescritos aos pacientes (iniciando por anamnese
acurada), para, fundamentalmente, controlar os riscos potenciais daí
provenientes. Interações de medicamentos (IMs) são eventos clínicos em que os
efeitos de um fármaco são alterados pela presença de outro fármaco, alimento,
bebida ou algum agente químico ambiental. Quando dois medicamentos são
administrados concomitantemente a um paciente, eles podem agir de forma independente
ou interagir entre si, com aumento ou diminuição de efeito terapêutico ou
tóxico de um ou de ambos. O
desfecho de uma IM pode ser perigoso quando promove aumento da toxicidade de um
fármaco. Por exemplo, pacientes que fazem uso de varfarina podem ter
sangramentos se passarem a usar ácido acetilsalicílico sem reduzir a dose do
anticoagulante. Algumas
vezes, a interação reduz a eficácia de um fármaco, o que pode ser tão nocivo
quanto a toxicidade. Por exemplo, tetraciclina sofre quelação por antiácidos e
alimentos lácteos, sendo excretada nas fezes sem produzir o efeito
antimicrobiano desejado. As interações benéficas terapeuticamente aumentam a
eficácia dos fármacos associados (p. ex.: associação de diuréticos a
anti-hipertensivos) ou exercem efeito corretivo sobre a reação adversa
consequente ao uso de um deles (p. ex.: diurético retentor de potássio corrige
a hipopotassemia induzida por tiazidas).
Embora muitos estudos tenham mostrado
que as associações de fármacos podem causar interações clinicamente
significantes, poucos examinaram seu impacto sobre saúde e bem-estar do
paciente. Um
deles comparou
as informações sobre IMs que constavam em quatro compêndios internacionais.
Foram identificadas e analisadas 1.095 interações graves para uma lista de 50 fármacos
(DOUBOVA, S. V. et al. Potential drug-drug and drug-disease interactions in
prescriptions for ambulatory patients over 50 years of age in family medicine
clinics in Mexico City . BMC Health Services Research,
[S. l.], v . 7. n. 147, p. 1-8, 2007; HOEFLER, R. Interações medicamentosas.
In: BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos
Estratégicos. Departamento de Assistência Farmacêutica e Insumos Estratégicos. Formulário terapêutico nacional 2008: rename
2006. Brasília: Ministério da Saúde, 2008. p. 30-33.; VON BAHR, C. et
al. How
can drug consumption among the elderly be improved? A systematic review. Summary and Conclusions of the SBU Report.
May 2009).
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