quarta-feira, 5 de outubro de 2022

ANEXO II GLOSSÁRIO OFICIAL PUBLICADO PELA ANVISA. Monitoramento farmacoepidemiológico.

 

ANEXO II GLOSSÁRIO OFICIAL PUBLICADO PELA ANVISA.

Antimicrobiano - substância que previne a proliferação de agentes infecciosos ou microorganismos ou que mata agentes infecciosos para prevenir a disseminação da infecção.

Concentração - concentração é a razão entre a quantidade ou a massa de uma substância e o volume total do meio em que esse composto se encontra.

Desvio de qualidade - afastamento dos parâmetros de qualidade definidos e aprovados no registro do medicamento.

Dispensação - ato do profissional farmacêutico de proporcionar um ou mais medicamentos a um paciente, geralmente, como resposta à apresentação de uma receita elaborada por um profissional autorizado. Neste ato, o farmacêutico informa e orienta ao paciente sobre o uso adequado desse medicamento. São elementos importantes desta orientação, entre outros, a ênfase no cumprimento do regime posológico, a influência dos alimentos, a interação com outros medicamentos, o reconhecimento de reações adversas potenciais e as condições de conservação do produto.

Dose - quantidade total de medicamento que se administra de uma única vez no paciente.

Escrituração - procedimento de registro, manual ou informatizado, da movimentação (entrada, saída, perda e transferência) de medicamentos sujeitos ao controle sanitário e definido por legislação vigente, bem como de outros dados de interesse sanitário.

Farmacoepidemiologia - estuda o uso e os efeitos dos medicamentos na população em geral. Livro de registro específico de antimicrobianos. Documento para escrituração manual de dados de interesse sanitário autorizado pela autoridade sanitária local. A escrituração deve ser realizada pelo farmacêutico ou sob sua supervisão.

Monitoramento farmacoepidemiológico.

Acompanhamento sistemático de indicadores farmacoepidemiológicos relacionados com o consumo de medicamentos em populações com a finalidade de subsidiar medidas de intervenção em saúde pública, incluindo educação sanitária e alterações na legislação específica vigente. Este monitoramento é composto de três componentes básicos: i) coleta de dados; ii) análise regular dos dados; e iii) ampla e periódica disseminação dos dados.

Monitoramento sanitário - acompanhamento sistemático de indicadores operacionais relativos ao credenciamento de empresas no sistema, retenção de receitas, escrituração, envio de arquivos eletrônicos e eficiência do sistema de gerenciamento de dados com a finalidade de subsidiar, entre outros instrumentos de vigilância sanitária, a fiscalização sanitária. Este monitoramento é composto de três componentes básicos:

i) coleta de dados;

ii) análise regular dos dados; e

iii) ampla e periódica disseminação dos dados.

Posologia - incluem a descrição da dose de um medicamento, os intervalos entre as administrações e o tempo do tratamento. Não deve ser confundido com "dose" - quantidade total de um medicamento que se administra de uma só vez.

Receita - documento, de caráter sanitário, normalizado e obrigatório mediante a qual profissionais legalmente habilitados e no âmbito das suas competências, prescrevem aos pacientes os medicamentos sujeitos a prescrição, para sua dispensação por um farmacêutico ou sob sua supervisão em farmácia e drogarias ou em outros estabelecimentos de saúde, devidamente autorizados para a dispensação de medicamentos.

Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados (SNGPC) - instrumento informatizado para captura e tratamento de dados sobre produção, comércio e uso de substâncias ou medicamentos.

Tratamento prolongado - terapia medicamentosa a ser utilizada por período superior a trinta dias.

Discussão ampla.

A iatrogenia é um fenômeno importante, e um risco severo para os pacientes. Um estudo de 1981 refere que um terço das doenças num hospital universitário eram de causa iatrogénica, que cerca de um em dez eram consideradas major, e que em 2% dos doentes a doença iatrogênica levou à morte. As complicações estavam mais fortemente associadas com a exposição a medicamentos. Noutro estudo, os principais fatores que levavam a problemas eram uma avaliação inadequada dos pacientes, falta de monitorização e acompanhamento, e a não realização dos testes de diagnóstico(Nas ciências da saúde, são denominados exames complementar de diagnóstico aqueles exames - laboratoriais, de imagem, etc -,  que complementam aos dados da anamnese e do exame físico para a confirmação das hipóteses diagnósticas e tratamento. São solicitados por diversos profissionais, como médicos, cirurgiões-dentistas, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, educadores físicos, nutricionistas, psicopedagogos. Exemplos comuns incluem a radiografia, tomografia axial computadorizada, ressonância magnética, exames laboratoriais etc)  necessários.  Estatísticas apresentadas nos Estados Unidos, registaram-se no ano 2000: 12 000 mortes em cirurgias desnecessárias; 7 000 mortes por erros de medicação em hospitais; 20 000 mortes por outros erros hospitalares; 80 000 mortes por infecções hospitalares; 106 000 mortes por efeitos laterais dos medicamentos (não por erro). Estes números, que totalizam 225000 mortes por ano, colocam a iatrogenia como terceira causa de morte nos Estados Unidos, após a doença cardíaca e o cancro, e a uma grande distância da causa seguinte, a doença cerebrovascular.

Ao interpretar estes números, é de notar que: a maior parte dos dados foi derivada de estudos em doentes hospitalizados; as estimativas são apenas para mortes, e não incluem outros efeitos negativos. As estimativas de morte devido a erro são menores que as do relatório IOM. Se forem usadas as estimativas mais altas, o número de mortes por iatrogenia pode variar entre 230 mil e 284mil. Iatrogenia refere-se a um estado de doença, efeitos adversos ou complicações causadas por ou resultantes do tratamento médico. Contudo, o termo deriva do grego iatros (médico, curandeiro) e genia (origem, causa), pelo que pode aplicar-se tanto a efeitos bons ou maus. Em farmacologia clínica, o termo iatrogenia refere-se a doenças ou alterações patológicas criadas por efeitos (co)laterais dos medicamentos. De um ponto de vista sociológico, a iatrogenia pode ser clínica, social ou cultural. Embora seja usada geralmente para se referir às conseqüências de ações danosas dos médicos, pode igualmente ser resultado das ações de outros profissionais não médicos, tais como psicólogos, terapeutas, enfermeiros, dentistas, etc. Além disso, doença ou morte iatrogénica não se restringe à medicina Ocidental: medicinas alternativas também pode ser uma fonte de iatrogenia, de acordo com a origem do termo. Podemos sugerir algumas fontes de fontes de iatrogenia. Entre elas: Erro médico; Negligência ou procedimentos com falhas; Suicídio assistido (ex: Eutanásia); Má caligrafia nas prescrições; Interação medicamentosa; Efeitos adversos dos medicamentos; Má utilização dos antibióticos, levando à criação de resistências; Tratamentos radicais; Erros de diagnóstico; Infecções nosocomiais; Transfusões sanguíneas.

Conclusão.

Iatrogenia pode ser considerada uma doença com efeitos e complicações causadas como resultado de um tratamento médico. O termo deriva do grego e significa de origem médica, e pode-se aplicar tanto a efeitos bons ou maus. Em farmacologia, iatrogenia refere-se a doenças ou alterações patológicas criadas por efeitos colaterais dos medicamentos. Geralmente a palavra é usada para se referir às conseqüências de ações danosas dos médicos, mas também pode ser resultado das ações de outros profissionais, como psicólogos, terapeutas, enfermeiros, dentistas, etc. Além disso, medicinas alternativas também pode ser uma fonte de iatrogenia. Uma causa muito comum de efeitos iatrogênicos, que acarreta em óbito, é a interação medicamentosa, que é quando um ou mais medicamentos alteram os efeitos de outros que estão sendo tomados pelo paciente, que podem aumentar ou diminuir a ação do mesmo. Efeitos colaterais, assim como reações alérgicas a medicamentos, também é uma forma de iatrogenia. Com o passar do tempo, algumas bactérias se tornar resistentes a determinados medicamentos, e essa resistência também é uma iatrogenia.

Antibiótico.

Antibiótico é nome genérico dado a uma substância que tem capacidade de interagir com micro-organismos unicelulares ou com seres pluricelulares que causam infecções no organismo. Os antibióticos interferem com os micro-organismos, matando-os ou inibindo seu metabolismo e/ou sua reprodução, permitindo ao sistema imunológico combatê-los com maior eficácia. O termo antibiótico tem sido utilizado de modo mais restrito para indicar substâncias que atingem bactérias, embora possa ser utilizado em sentido mais amplo (contra fungos, por exemplo). Ele pode ser bactericida, quando tem efeito letal sobre a bactéria ou bacteriostático, se interrompe a sua reprodução ou inibe seu metabolismo. As primeiras substâncias descobertas eram produzidas por fungos, como a penicilina. Atualmente são sintetizadas ou alteradas em laboratórios farmacêuticos e têm a capacidade de impedir ou dificultar a manutenção de um certo grupo de células vivas.

Como tratar infecção urinária

O presente Tomo I tem como objetivos: Conhecer a importância da resistência microbiana no cenário mundial, nacional e em seu dia-a-dia de trabalho; Identificar os principais mecanismos relativos ao surgimento da resistência microbiana; Analisar a importância da prescrição adequada dos antimicrobianos; Conhecer as estratégias para a implantação de um programa de uso racional de antimicrobianos em serviços de saúde. Um dos mais graves problemas que atingem os serviços de saúde em todo mundo é a emergência de microrganismos resistentes a diversos antimicrobianos. A presença de microrganismos resistentes é bastante evidente em infecções relacionadas à assistência à saúde. Atualmente, observa-se o aumento da presença da resistência microbiana em infecções adquiridas na comunidade, podendo ser isolados em casos de: diarréias; doenças sexualmente transmissíveis; meningites; infecções respiratórias; infecções do trato urinário; infecções de pele. Os microrganismos multirresistentes não se restringem às infecções relacionadas à assistência à saúde, mas também estão presentes nas infecções adquiridas na comunidade. Mais de sessenta anos após Alexander Fleming ter alertado para a importância do entendimento dos mecanismos da resistência e, embora esse conhecimento tenha avançado a resistência microbiana ainda é um importante problema, impondo dificuldades no tratamento de infecções virais, bacterianas, fúngicas e, até mesmo, parasitárias.  Assim, desde a descoberta da penicilina, o sucesso da terapia antimicrobiana tem sido, de certa forma, ofuscado pela resistência microbiana. O profissional de saúde deve ter se atua na Clínica Especializada o aprofundamento dos estudos, em relação à antibioterapia, assim, refuto como importante, a saber:

Fatores da resistência microbiana:

Conseqüências da resistência microbiana em serviços de saúde:

  • Uso inadequado de antimicrobianos;
  • Falta de adesão dos profissionais de saúde às medidas recomendadas para prevenção da transmissão de microrganismos.
  • Aumento da morbidade;
  • Aumento da mortalidade;
  • Prolongamento do tempo de internação hospitalar;
  • Elevação dos custos do tratamento.

 

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Estrutura geral das penicilinas, um grupo de antibióticos.

Pesquisa realizada recentemente constata que tomar antibiótico sem precisar pode tornar a gripe ou outras infecções virais pior. O estudo, realizado com ratos, mostrou que os antibióticos mataram as bactérias amigáveis que vivem nos intestinos, e que combatem infecções no sistema imunológico. Essas bactérias “comensais” ajudam o organismo a se defender contra vírus, mantendo o sistema imunológico em alerta para invasores virais. Os pesquisadores trataram ratos durante um mês com quatro antibióticos comumente dados às pessoas com infecções bacterianas. Em seguida, os roedores foram infectados com a gripe. O tratamento antibiótico diminuiu a capacidade dos ratos de fabricar uma importante molécula que combate a gripe, chamada interleucina-1(A interleucina 1 (IL-1) é uma interleucina cuja função principal é aumentar a produção de defensinas pelo epitélio. Referências: March CJ, Mosley B, Larsen A, Cerretti DP, Braedt G, Price V, Gillis S, Henney CS, Kronheim SR, Grabstein K, et al.. (Agosto 1985). "Cloning, sequence and expression of two distinct human interleukin-1 complementary DNAs". Nature 315 (6021): 641–7. DOI:10.1038/315641a0. PMID 2989698;  Auron PE, Webb AC, Rosenwasser LJ, Mucci SF, Rich A, Wolff SM, Dinarello CA.. (1984). "Nucleotide sequence of human monocyte interleukin 1 precursor cDNA". Proc Natl Acad Sci U S A 81 (24): 7907–11. DOI:10.1073/pnas.81.24.7907. PMID 6083565;  Dinarello CA. (1994). "The interleukin-1 family: 10 years of discovery". FASEB J. 8 (15): 1314–25. PMID 8001745. – Ver nota *1)beta, ou IL-1 beta. A IL-1 beta é necessária não só para combater a gripe, mas também outros vírus. Segundo os pesquisadores, os ratos tratados com antibióticos não tinham, em geral, o sistema imunológico enfraquecido. Eles ainda eram capazes de combater a herpes, por exemplo, porque o sistema imunitário combate a herpes e alguns outros vírus usando uma “arma molecular” diferente. Os cientistas já sabiam que as bactérias amigáveis do intestino podiam ajudar a combater outras bactérias causadoras de doenças. E experiências anteriores sugeriram que os micróbios do intestino poderiam influenciar o quão bem funciona o sistema imunológico. Entretanto, os pesquisadores pensavam que esse efeito era exclusivo do sistema digestivo. O novo estudo mostra que essa relação benéfica existe distante da flora intestinal. Os pulmões são normalmente estéreis, por isso foi surpreendente que matar bactérias tão longe do cólon teve efeito sobre o quão bem os pulmões poderiam combater vírus.  As bactérias intestinais estimulam constantemente o sistema imunológico para produzir IL-1 beta, mantendo a vigilância do sistema imunitário contra a gripe e outros vírus. Os pesquisadores não têm certeza ainda quais bactérias do intestino são responsáveis pelo mecanismo de defesa contra vírus, mas sabem que a bactéria Sphingomonas, por exemplo, não estimula resposta de combate a vírus. Algumas bactérias Lactobacillus, por outro lado, são conhecidas como “amigáveis” ao organismo, e podem desempenhar um papel na defesa contra vírus. Ratos tratados com o antibiótico  neomicina, que anula a maioria dos tipos de bactéria Lactobacillus, tiveram dificuldades de combate à gripe. Se os pesquisadores puderem descobrir exatamente quais bactérias são responsáveis por essa defesa, é possível criar novos probióticos que aumentem as capacidades de combate a vírus.

Aumento da resistência.

Na última década, a resistência microbiana emergiu como um dos principais problemas de saúde pública e, infelizmente, tem apresentado um crescimento constante. Como já sabemos o aumento da resistência microbiana é freqüente nas unidades de terapia intensiva (UTIs); as infecções relacionadas à assistência à saúde decorrente de microrganismos resistentes a vários antimicrobianos têm aumentado dramaticamente nestas unidades nos últimos anos.

 O uso indiscriminado de medicamentos, sobretudo antibióticos, aumenta de forma considerável o risco de casos de superbactérias – micro-organismos resistentes à maior parte dos tratamentos disponíveis (Sociedade Brasileira de Infectologia).A Organização Mundial da Saúde (OMS), informa que 440 mil casos de tuberculose resistente são registradas no mundo. Todos os anos são registrados em media cerca de 150 mil mortes decorrentes de infecções por superbactérias. É importante frisar que não há hospital livre disso. Lógico que um hospital de grande porte e de alta complexidade ou um hospital universitário com vários leitos de UTI(unidade de terapia intensiva) e que interna pacientes com cirurgias complicadas são o tipo de lugar que pode ter mais bactérias resistentes. Mas nenhum “hospital ou casa de repouso com longa permanência está livre disso”, observa a Sociedade Brasileira de Infectologia. Para os infectologistas, o uso indiscriminado de antibióticos configura, de certa forma, um problema cultural, já que o profissional de saúde se sente mais seguro ao receitar o medicamento. “Ele acha que está fazendo um bem para o paciente, mas vários fatores precisam ser levados em conta na hora de fazer um programa de prevenção e também de orientação para o uso de antibiótico”, reforça posição de membros da Sociedade Brasileira de Infectologia. Na tentativa de conter os casos de superbactéria no Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) determinou que a venda de antibióticos só pode ser feita com a apresentação de duas vias da receita médica. O objetivo, de acordo com a gerência de Vigilância e Monitoramento em Serviços de Saúde, é restringir a automedicação, já que uma via fica retida pelo estabelecimento. É importante reforçar que após os casos da superbactéria KPC (Klebsiella pneumoniae carbapenemase) registrados no país nos últimos anos, a ANVISA editou uma nota técnica que trata da identificação, prevenção e controle de infecções relacionadas à micro-organismos multirresistentes. Entre as obrigatoriedades nas unidades de saúde está à higienização das mãos por meio do uso de álcool em gel por profissionais de saúde e visitantes. A indústria farmacêutica - Nas últimas décadas, a indústria farmacêutica tem dispensado poucos recursos para a descoberta de novos antimicrobianos, especialmente contra bactérias.

Vejamos alguns dados: A aprovação pelo United States Food and Drug Administration (FDA) de novas drogas antibacterianas foi reduzida em 56% nos últimos 20 anos (comparando 1998-2002 a 1983-1987), como mostra a Figura na sequência.

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 Novos antimicrobianos aprovados pelo United States Food and Drug Administration (FDA), de 1983 a 2002 - Adaptado de Spellberg et al.(2004).

Dos novos antimicrobianos introduzidos na última década, nenhum tem atividade contra Pseudomonas aeruginosa multirresistente(Quadro 1).

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Como conseqüência: muitas bactérias, que são agentes freqüentes de infecções relacionadas à assistência à saúde, continuam desenvolvendo resistência aos antimicrobianos atualmente disponíveis; ao mesmo tempo, não há a descoberta de novas drogas contra estas cepas, especialmente em relação aos bacilos Gram-negativos.

Se não ocorrerem mudanças, num futuro bastante próximo poderá haver infecções que não serão passíveis de tratamento.

http://www.anvisa.gov.br/servicosaude/controle/rede_rm/cursos/atm_racional/modulo1/image/figura2.gif Resumo da situação atual.

Aquisição de resistência - Com freqüência, bactérias utilizam mais de uma estratégia para evitar a ação dos antimicrobianos, assim, à ação conjunta de múltiplos mecanismos pode produzir um acentuado aumento da resistência aos antimicrobianos. A resistência a determinado antimicrobiano pode constituir uma propriedade intrínseca de uma espécie bacteriana ou uma capacidade adquirida. Para adquirir resistência, a bactéria deve alterar seu DNA, material genético, o que ocorre de duas formas:

1. Indução de mutação no DNA nativo;

2. Introdução de um DNA estranho - genes de resistência - que podem ser transferidos entre gêneros ou espécies diferentes de bactérias.

Os genes de resistência quase sempre fazem parte do DNA de plasmídeos extracromossômicos, que podem ser transferidos entre microrganismos. Alguns genes de resistência fazem parte de unidades de DNA denominadas transposons, que se movem entre cromossomos e plasmídeos transmissíveis. O DNA estranho pode ser adquirido mediante transformação, resultando em trocas de DNA cromossômico entre espécies, com subseqüente recombinação interespécies. Relembremos alguns dos principais mecanismos de resistência.

Principais mecanismos - Alteração de permeabilidade.

A permeabilidade limitada constitui uma propriedade da membrana celular externa de lipopolissacarídeo das bactérias Gram-negativas. A permeabilidade dessa membrana reside na presença de proteínas especiais, as porinas, que estabelecem canais específicos pelos quais as substâncias podem passar para o espaço periplasmático e, em seguida, para o interior da célula. A permeabilidade limitada é responsável pela resistência intrínseca dos bacilos Gram-negativos à penicilina, eritromicina, clindamicina e vancomicina e pela resistência de Pseudomonas aeruginosa ao http://www.anvisa.gov.br/servicosaude/controle/rede_rm/cursos/atm_racional/modulo1/image/alteracao_permeabilidade.jpgtrimetoprim.  

 

 

 

As bactérias utilizam esta estratégia na aquisição de resistência. Assim, uma alteração na porina específica da membrana celular externa de P. aeruginosa, pela qual o imipenem geralmente se difunde, pode excluir o antimicrobiano de seu alvo, tornando P. aeruginosa resistente ao imipenem.

Alteração do sítio de ação do antimicrobiano.

A alteração do local-alvo onde atua determinado antimicrobiano, de modo a impedir a ocorrência de qualquer efeito inibitório ou bactericida, constitui um dos mais importantes mecanismos de resistência. As bactérias podem adquirir um gene que codifica um novo produto resistente ao antimicrobiano, substituindo o alvo original.
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Exemplo:  Staphylococcus aureus resistente à oxacilina e estafilococo coagulase negativa adquiriram o gene cromossômico mecA e produzem uma proteína de ligação da penicilina (PBP ou PLP)  resistente aos β-lactâmicos, denominada 2a ou 2', que é suficiente para manter a integridade da parede celular durante o crescimento, quando outras PBPs essenciais são inativadas por antibimicrobianos β-lactâmicos. Alternativamente, um gene recém-adquirido pode atuar para modificar um alvo, tornando-o menos vulnerável a determinado antimicrobiano. Assim, um gene transportado por plasmídeo ou por transposon codifica uma enzima que inativa os alvos ou altera a ligação dos antimicrobianos (como ocorre com eritromicina e clindamicina).

Principais mecanismos - Bomba de efluxo.

O bombeamento ativo de antimicrobianos do meio intracelular para o extracelular, isto é, o seu efluxo ativo, produz resistência bacteriana a determinados antimicrobianos. A resistência às tetraciclinas codificada por plasmídeos em Escherichia coli resulta deste efluxo ativo.

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Mecanismo enzimático.

O mecanismo de resistência bacteriano mais importante e freqüente é a degradação do antimicrobiano por enzimas. Ocorrência do mecanisco (Como?): As β-lactamases hidrolisam a ligação amida do anel beta-lactâmico, destruindo, assim, o local onde os antimicrobianos β-lactâmicos ligam-se às PBPs bacterianas e através do qual exercem seu efeito antibacteriano. Foram descritas numerosas β-lactamases diferentes. Essas enzimas são codificadas em cromossomos ou sítios extracromossômicos através de plasmídeos ou transposons, podendo ser produzidas de modo constitutivo ou ser induzido. A resistência quase universal de S. aureus à penicilina é mediada por uma β-lactamase induzível, codificada por plasmídeo. Foram desenvolvidos β-lactâmicos capazes de se ligarem irreversivelmente às β-lactamases, inibindo-as. Esses compostos (ácido clavulânico, sulbactam, tazobactam) foram combinados com as penicilinas para restaurar sua atividade, a despeito da presença de β-lactamases em estafilococos e hemófilos.

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Mecanismos de resistência e a transferência de genes de resistência.

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Relevância: Principais mecanismos - Mecanismo enzimático.

Nas bactérias Gram-negativas, o papel das β-lactamases na resistência bacteriana é complexo e extenso: •            verifica-se a presença de quantidades abundantes de enzimas; muitas delas inativam vários antimicrobianos β-lactâmicos; os genes que codificam essas β-lactamases estão sujeitos a mutações que expandem a atividade enzimática e que são transferidos de modo relativamente fácil.

Além disso, as β-lactamases de bactérias Gram-negativas são secretadas no espaço periplasmático, onde atuam em conjunto com a barreira de permeabilidade da parede celular externa, produzindo resistência clinicamente significativa a antimicrobianos.

Características das bactérias Gram-positivas e Gram-negativas(Detalhes mais a frente nos comentários do autor).

As β- lactamases de espectro estendido (ESBL), mediadas por plasmídeos, inativam as cefalosporinas de terceira geração e os monobactâmicos como ocorre em cepas de Klebsiella pneumoniae.  As β-lactamases mediadas por cromossomos são produzidas em baixos níveis por P. aeruginosa, Enterobacter cloacae, Serratia marcescens e outros bacilos Gram-negativos; quando esses microrganismos são expostos a antimicrobianos β-lactâmicos, são induzidos altos níveis de β-lactamases, produzindo resistência às cefalosporinas de terceira geração, cefamicinas e combinações de β-lactâmicos/ácido clavulânico ou sulbactam. Reforça-se na oportunidade que “O uso indiscriminado de antimicrobianos exerce uma enorme pressão seletiva para a manutenção e ampliação da resistência bacteriana. O uso freqüente de antimicrobianos é seguido de frequência aumentada de bactérias resistentes que passam a se disseminar em conseqüência de medidas insuficientes de prevenção de infecções. Embora não se possa eliminar o uso de antimicrobianos, a administração racional desses agentes não apenas exige uma seleção criteriosa do antimicrobiano e da duração da terapia, como também suaindicação apropriada” (SILVA. César,).

Antimicrobianos e o surgimento da resistência.

Ao analisar a resistência bacteriana é necessário considerar, em relação aos antimicrobianos: mecanismos de ação; propriedades necessárias para a sua eficácia. Os antimicrobianos devem ser capazes de: Alcançar os alvos moleculares, que são primariamente intracelulares. Para isso, o antimicrobiano, em quantidades suficientes, precisa ultrapassar a membrana celular bacteriana; Interagir com uma molécula-alvo de modo a desencadear a morte da bactéria; Evitar a ação das bombas de efluxo que jogam o antimicrobiano para fora da célula bacteriana; Evitar a inativação por enzimas capazes de modificar o fármaco no ambiente extracelular ou no interior da célula bacteriana.

O uso de antimicrobianos (tanto para o tratamento de determinada infecção, comprovada ou não, como para profilaxia) promove a adaptação ou a morte dos microrganismos, em um fenômeno conhecido como pressão de seleção. Os microrganismos que sobrevivem possuem genes de resistência, que podem ser transmitidos a outros microrganismos da mesma espécie ou até mesmo, de outras espécies.

Diretrizes de prevenção da resistência microbiana.

Outros fatores envolvidos na disseminação da resistência aos antimicrobianos envolvem múltiplos e complexos mecanismos, podendo ser agrupados, esquematicamente, em quatro categorias, a saber:

1.     primeira categoria refere-se às características do próprio microrganismo, tais como: a virulência, a transmissibilidade e a capacidade de sobrevivência. 

2.     segunda categoria inclui fatores relacionados ao paciente, como: o aumento da população de doentes com maior gravidade e de imunodeprimidos. O desenvolvimento de procedimentos invasivos, para diagnóstico e tratamento, também tem resultado no estabelecimento de novos sítios e tipos de infecções.

3.     terceira categoria de determinantes está relacionada aos padrões de prescrição desta classe de drogas, isto é, envolve osprescritores.

4.     quarta categoria refere-se ao ambiente que envolve a assistência à saúde.

Visando investimentos na educação do profissional da saúde, várias diretrizes de prevenção foram desenvolvidas. Em 1995, o “Hospital Infection Control Pratices Advisory Committee” (HICPAC) ligado ao Centers for Disease Control and Prevention publicou recomendação para prevenção e controle de disseminação de microrganismos resistentes, particularmente Enterococcus spp., com ênfase na adequação do uso da vancomicina no ambiente hospitalar. Em 2002, o Centers for Disease Control and Prevention realizou uma grande campanha nos Estados Unidos para a prevenção da resistência bacteriana resumida em 12 passos fundamentais.  A “Society for Healthcare Epidemiology of América” (SHEA) em 2006 também publicou diretrizes para prevenção de resistência microbiana nos hospitais, no qual recomendava a adoção do guia para isolamento e precauções para bactérias resistentes desenvolvido pelo “Centers for Disease Control and Prevention”. Em 2007, o HICPAC-CDC publicou uma nova revisão das diretrizes de recomendações sobre precauções e isolamento para prevenção da transmissão de microrganismos em serviços de saúde. Se por um lado há poucas estratégias para alterar os fatores relacionados ao paciente e ao microrganismo, por outro, há evidências de que a melhora na prática de prescrição de antimicrobianos e das medidas de prevenção das infecções (isto é, os fatores relacionados ao ambiente) pode reduzir a resistência microbiana. Analise a Dinâmica da transmissão de microrganismos multirresistentes (ilustração seguinte):

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Prevenção da resistência microbiana.

Como prevenir a resistência bacteriana.

Dicas simples e fundamentais para evitar o surgimento de bactérias resistentes a antibióticos.  Prevenir ou tratar infecções bacterianas é o trabalho que os antibióticos foram projetados para realizar. No entanto, gripes, resfriados, bronquites e a maior parte das tosses são causadas por vírus, e antibióticos nada podem fazer para prevenir ou tratar esses problemas, esse alerta deve ser feito pelos cientistas e nos Estados Unidos os  Centros de Prevenção e Controle de Doenças (CDC) alertam . O uso desnecessário de antibióticos permite às bactérias mutarem e desenvolverem resistência a essas drogas, afirma o CDC e a ANVISA no Brasil. Nos Estados Unidos os  CDC  – uma das maiores autoridades mundiais no estudo de vírus e bactérias – oferece as seguintes sugestões para prevenir o desenvolvimento de bactérias resistentes: Os médicos e profissionais diversos da Saúide Pública devem orientar o paciente a tomar seus antibióticos exatamente como o médico indica. O mesmo conselho vale para as crianças. Se está em tratamento com antibióticos, não pare de tomá-los apenas porque se sente melhor. Termine sempre a dose recomendada pelo médico. Não insista com antibióticos para tratar gripe ou resfriados, bronquite ou tosse, nariz escorrendo ou dor de garganta que não seja de origem bacteriana.

SITUAÇÃO CRÍTICA.

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O prefixo super pode assustar, mas o temor em relação às superbactérias tem fundamento. Uma das grandes preocupações médicas atuais é a escassez de medicamentos para combater esses micro-organismos cada vez mais resistentes. Algumas atitudes simples, como um sistema imune fortalecido e medidas de higiene fáceis de incorporar na rotina podem ajudar a mantê-las longe do corpo.

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Caso real. Gabriel Montagnani foi hospitalizado por causa da Staphylococcus Aureus resistente à meticilina.

Atualmente, as superbactérias mais temidas são a MRSA ( Staphylococcus Aureus resistente à meticilina), KPC ( Klebsiella Pneumoniae Carbapenemase ) e a NDM-1 ( New Delhi metallo-B-lactamase-1 ), esta última responsável pelas recentes infecções hospitalares em hospitais de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. "É importante ressaltar que desde a descoberta da penicilina as bactérias têm sofrido mutações. Elas querem sobreviver a qualquer custo e sob qualquer condição, por isso adquirem a capacidade de transmitir códigos genéticos entre si e para outras bactérias de outra espécie e começam a neutralizar os antibióticos. Elas podem destruir o antibiótico com que entraram em contato, podem expulsar o medicamento da célula ou até mesmo inativá-lo"(Jean Gorinchteyn, infectologista do Instituto de Infectologia Emílio Ribas).

O médico que pensa que as pessoas afetadas pelas bactérias resistentes são somente aquelas que se medicaram frequentemente com antibióticos, seja ele prescrito pelo médico ou administrado por decisão própria, a conhecida automedicação, erra. A maioria dos casos de infecção hospitalar é causada por bactérias endógenas, ou seja, por aquelas que carregamos naturalmente no organismo. Um exemplo disso é a Escherichia coli (E. Coli), que habita o intestino. Quando ela migra para outras partes do corpo provoca uma infecção difícil de tratar. Como já se sabe algumas bactérias do intestino vão para o trato genital, por exemplo, podem causar infecções. Para serem consideradas bactérias boas, elas têm de permanecer no lugar que foi designado a elas (Gorinchteyn).

 

Diretrizes de prevenção da resistência microbiana.

Diretrizes para prevenção da resistência microbiana.

Campanha para prevenção da resistência aos antimicrobianos, CDC, 2002.

Diretrizes para prevenção da resistência microbiana.

Diretrizes do Healthcare Infection Control Practices Advisory Committee. Management of Multidrug resistant Organisms in Healthcare Settings, 2006.

Passos e estratégias para prevenção da resistência aos antimicrobianos:

Estratégia: PREVENIR INFECÇÃO

Passo 1: Vacinar os pacientes e profissionais de saúde

Passo 2: Retirar os cateteres precocemente

Estratégia: DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO EFETIVO DAS INFECÇÕES

Passo 3: Identificar o microrganismo

Passo 4: Consultar o infectologista

Estratégia: USO ADEQUADO DE ANTIMICROBIANOS

Passo 5: Praticar controle de antimicrobianos

Passo 6: Usar dados locais sobre perfil de resistência dos microrganismos

Passo 7: Tratar infecção, não contaminação

Passo 8: Tratar infecção, não colonização

Passo 9: Saber quando dizer “não” à vancomicina

Passo 10: Suspender os antimicrobianos quando a infecção for descartada ou tratada

Estratégia: PREVENIR TRANSMISSÃO

Passo 11: Isolar pacientes com microrganismos resistentes

Passo 12: Quebrar a cadeia de transmissão

Os níveis de evidências das recomendações propostas como diretrizes.

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Diretrizes para prevenção da resistência microbiana. Diretrizes do Healthcare Infection Control Practices Advisory Committee. Management of Multidrug resistant Organisms in Healthcare Settings, 2006.

Vigilância: a) Calcular e analisar a incidência de microrganismos multirresistentes – IB; b) Monitorizar susceptibilidade antimicrobiana como recomendado pelo CLSI – II; c) Instituir protocolos para análise molecular de cepas multirresistentes no laboratório, com o intuito de investigação epidemiológica – IB; d) Desenvolver protocolos para vigilância ativa de culturas em populações de alto risco – IB; e) Conduzir vigilância de culturas (semanal) para avaliação de eficácia das medidas de prevenção e controle, avaliando aumento ou redução da transmissão de multirresistência – IB; f) Coletar culturas em profissionais de saúde, se houver evidência epidemiológica de transmissão, bem como de pacientes expostos ao risco de infecção ou colonização por microrganismos multirresistentes – IB; g) Definir a freqüência de multirresistência para desencadear intervenções adicionais no controle, avaliando as condições de risco para aquisição (colonização ou infecção) –

Medidas administrativas: a) Fornecer suporte administrativo e recursos humanos para as atividades relacionadas ao controle de infecção, bem como designar equipe de especialistas para o controle e prevenção de microrganismos multirresistentes – IB; c) Implementação de programa multidisciplinar estruturado para educar, monitorar e melhorar a aderência das práticas de precauções padrão e específicas – IB; d) Implementação de sistema de comunicação sobre colonização e infecção de microrganismos multirresistentes dentro da instituição – IB.

Precauções: a) Oferecer treinamento sobre riscos de transmissão e sobre como realizar a prevenção para os profissionais da área da saúde (manipulação de equipamentos, etc) – IB.

Educação: a) Manter precauções padrão para todos os pacientes – IB; b) Precauções em hospitais e instituições de longa permanência – IB:     b.1.) quando estiverem disponíveis quartos individuais, priorizar pacientes com conhecida ou suspeita de infecção/colonização por microrganismos multirresistentes;     b.2.) priorizar aqueles pacientes com condições que facilitem a transmissão (incontinência fecal, drenagem não contida, crianças) ou com alto risco de infecção e complicação (imunossuprimidos); b.3) quando não disponíveis quartos individuais, coorte de pacientes com mesmo patógeno multirresistente.

Precauções de contato: a) Implementar nos hospitais precauções de contato para todos os pacientes com colonização ou infecção por patógeno multirresistente – IA; b) Em instituições de longa permanência avaliar caso a caso, considerando a natureza da interação paciente/profissionais e/ou risco de outros pacientes - II.

Medidas ambientais: a) Seguir rotina de recomendação de procedimentos da limpeza, esterilização e desinfecção para artigos críticos e não críticos, bem como monitorizar o funcionamento adequado destes materiais – IB; b) Fazer culturas de vigilância do ambiente somente quando existir a possibilidade de importância epidemiológica da transmissão – IB; c) Treinamento de profissionais que atuam em áreas de risco e controle de multirresistentes quanto ao papel do meio ambiente como forma de transmissão – IB.

Uso de antimicrobianos: Manter um programa de racionalização do uso de antimicrobianos – IB.

Descolonização: a) Não há recomendação para descolonização de pacientes portadores de VRE e bacilos gram-negativos multirresistentes; b) Não utilizar mupirocina tópica rotineiramente para descolonização de MRSA – IB. Utilizar a mupirocina tópica somente quando recomendado por especialistas, como em controle de surtos e monitorizar o perfil de resistência da cepa para mupirocina –

Descontinuidade das medidas de prevenção: Não há recomendação para descontinuidade das medidas de prevenção e controle de multirresistência.

Evidências de que o uso adequado de antimicrobianos pode retardar o surgimento da resistência microbiana. Avaliando diversas publicações de estudos, por meio de: estudos de coorte, modelos matemáticos e análises de surtos, há evidências que sugerem a associação entre o uso de antimicrobianos e a elevação das taxas de resistência microbiana, como mostra o Quadro que segue: 

 

http://www.anvisa.gov.br/servicosaude/controle/rede_rm/cursos/atm_racional/modulo1/image/quadro3_v3.jpg

No entanto, estas análises apresentam algumas limitações, especialmente quando se pretende transpor esta correlação para a prática clínica. Uma delas é a dificuldade em estabelecer, por meio destes estudos, a relação quantitativa entre consumo de antimicrobianos e resistência, isto é, definir a quantidade de antimicrobiano a partir da qual surge a resistência. Outra limitação é que, embora a maioria destes estudos aponte o vínculo entre consumo de antimicrobianos e resistência, este não parece ocorrer de forma uniforme e homogênea para todas as bactérias e para todos os antimicrobianos. Evidências de que o uso adequado de antimicrobianos pode retardar o surgimento da resistência microbiana. Na comunidade, a relação entre consumo de antimicrobianos e resistência também tem sido evidenciada. O aumento da prevalência de agentes resistentes em infecções respiratórias inferiores, especialmente o pneumococo resistente à penicilina e/ou macrolídeos tem sido observado em vários países da Europa e América do Norte. Alguns estudos populacionais demonstram que o consumo, ou melhor, a venda de beta-lactâmicos, co-trimoxazol e macrolídeos em uma determinada região, pode ser proporcional à resistência à penicilina. Em diversos estudos na Web, é possível obter exemplos da relação entre uso de antimicrobianos e resistência. Um exemplo de mudanças de padrões no uso de antimicrobianos que afeta a flora microbiana e a resistência é a rotação, rodízio ou uso cíclico de antimicrobianos. O rodízio de antimicrobianos é uma estratégia para limitar ou controlar a escolha de drogas, sendo estabelecida a rotação periódica e sistemática destes fármacos. A primeira experiência que demonstrou esta associação ocorreu na década de 80 e demonstrou o impacto da alteração no uso de diferentes aminoglicosídeos e a taxa de resistência a estas drogas entre bacilos Gram-negativos. Posteriormente nos anos 1990, outros estudos com esta mesma abordagem foram realizados, utilizando a rotação com outras classes de antimicrobianos (fluorquinolonas, beta-lactâmicos, associações com inibidores de beta-lactamases) e também foi evidenciado o impacto da mudança no uso de determinados antimicrobianos sobre a microbiota e perfil de resistência. Um problema evidenciado nestes estudos é que na maioria deles a mudança no uso de antimicrobianos foi acompanhada por outras medidas de prevenção para disseminação destas bactérias, sendo difícil mensurar o impacto isolado da alteração no consumo destas drogas. De qualquer forma, estes estudos fornecem evidências para a relação entre o consumo de antimicrobianos e resistência microbiana. A duração do tratamento também parece ter um papel importante. Paramythiotou et al. (2004), identificaram que a duração do uso de ciprofloxacina era um fator de risco independente para a aquisição de P.aeruginosa resistente em pacientes em UTI. A resistência crescente entre os Gram-negativos não fermentadores também tem sido associada ao aumento do consumo de antimicrobianos. Um exemplo é a fração de bacilos Gram-negativos resistentes à fluorquinolona, especialmente Pseudomonas aeruginosa. Estes agentes apresentaram um aumento significativo nos Estados Unidos no início dos anos 90 até 2000, associado a um aumento do uso de fluorquinolonas durante este mesmo período, como mostra a Figura(Veja  o gráfico da Figura seguinte). Esta relação entre uso de antimicrobianos e aquisição de multirresistência entre bacilos Gram-negativos não fermentadores também foi demonstrada em outros estudos.

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Disseminação da resistência microbiana.

Falta de adesão às medidas de precauções.

As UTIs fornecem o cenário ideal para a emergência e disseminação da resistência bacteriana, por meio dos freqüentes contatos entre os profissionais de saúde e os pacientes. Isto, aliado à baixa aderência de higienização das mãos (uma conseqüência do aumento da carga de trabalho), pode proporcionar atransmissão cruzada de microrganismos entre pacientes. É estes também os locais, no ambiente hospitalar, onde a pressão de seleção exercida pelo elevado consumo de antimicrobianos é mais evidente.

Uso abusivo de antimicrobianos.

Estudos realizados por Mc Gowan, 2001, indicam explicações para a disseminação da resistência microbiana, estimando que: 30 a 40% das infecções por microrganismos resistentes ocorrem por transmissão cruzada, especialmente pelas mãos dos profissionais de saúde; 20 a 25% ocorrem em virtude da pressão de seleção do uso de antimicrobianos;  20 a 25% decorrem da introdução de novos microrganismos; 20% são decorrentes de outras causas.

Desta perspectiva, Wenzel e Edmond (2000) propõem um paradigma para a prevalência da resistência bacteriana em hospitais e consideram três os principais fatores envolvidos na resistência. Para um determinado período, as taxas de resistência bacteriana seriam resultado da relação dos seguintes fatores: uso de antimicrobianos no hospital; •            taxa de transmissão cruzada de microrganismos resistentes na instituição;              introdução de patêgenos resistentes provenientes da comunidade. A importância relativa de cada uma destas variáveis é desconhecida e, provavelmente, varia de acordo com o tipo de microrganismo. Resistência microbiana e exposição aos antimicrobianos não pode ser considerada como um problema com uma única causa. O uso de antimicrobianos é apenas um dos fatores que influenciam a prevalência da resistência.

Prescrição de antimicrobianos.

Fatores de influência sobre a prescrição de antimicrobianos. O uso de antimicrobianos parece ser influenciado por um conjunto de fatores, que incluem: o conhecimento e as percepções do prescritor;  a interação do prescritor com o paciente;  as expectativas do paciente;  as características sócio-econômicas e do sistema de saúde do país.

Exemplos de influências sobre a prescrição de antimicrobianos: As percepções do prescritor, em relação às expectativas do paciente, podem ter uma influência significativa sobre o uso de antimicrobianos. Os médicos podem ser pressionados pelas expectativas do paciente, em relação à prescrição de antimicrobianos, em situações onde não seria necessária a sua introdução imediata. A incerteza do diagnóstico, relacionada à falta de acesso a exames laboratoriais ou à falta de confiabilidade dos resultados, também pode influenciar negativamente a prescrição de antimicrobianos. Por outro lado, sabe-se que o reconhecimento precoce de infecções graves, a detecção rápida dos microrganismos causadores e o início imediato da terapêutica adequada são aspectos fundamentais para melhor evolução dos pacientes. Portanto, para a maioria dos médicos, o risco imediato apresentado pelo paciente sobrepõe-se a qualquer desvantagem que possa advir em longo prazo do uso abusivo de antimicrobianos.

Prescrição de antimicrobianos -  Consumo de antimicrobianos.

O médico, ao prescrever um antimicrobiano, precisa ter clareza da utilização adequada destas drogas. No ambiente hospitalar, este uso tem sido abusivo e muitas vezes inadequado. No ambiente hospitalar, a prescrição de antimicrobianos é ampla e estes fármacos são responsáveis por mais de 30% dos gastos da farmácia.             25 a 40% dos pacientes hospitalizados utilizam, em algum momento de sua internação, pelo menos um antimicrobiano. Mais de 50% destas prescrições são inadequadas quanto à via de administração, à dose e até mesmo quanto à indicação do antimicrobiano. Lembre-se de usar a dose adequada do antimicrobiano corrigida pelo peso e pela função renal.

Prescrição de antimicrobianos - Uso racional de antimicrobianos.

Programa de uso racional dos antimicrobianos em instituições de saúde - Programa de uso racional de antimicrobianos em instituições de saúde é o conjunto de ações destinadas a racionalizar a prescrição destas drogas, variando de simples avaliações do consumo global a complexos processos de assessoria, padronização de condutas e medidas intervencionistas. O objetivo primordial de um programa de controle e uso racional de antimicrobianos em instituições de saúde é: a otimização das prescrições, com foco no melhor resultado terapêutico ou profilático; a minimização dos efeitos colaterais, da seleção de germes patogênicos e da emergência de resistência microbiana, proporcionando um ambiente de maior segurança para os pacientes. Além disso, em função da grande participação dos antimicrobianos no conjunto dos gastos assistenciais, em especial em instituições de alta complexidade, tal programa pretende reduzir os custos diretos com essas medicações e aqueles secundários à seleção de flora microbiana multirresistente, como a maior utilização de procedimentos invasivos e exames complementares e o menor giro dos leitos hospitalares.

 

Prescrição de antimicrobianos -  Uso racional de antimicrobianos.

Estratégias para a racionalização do uso dos antimicrobianos - Em instituições de saúde estas estratégias variam amplamente conforme: o perfil assistencial; o investimento em recursos humanos e tecnológicos; a experiência da equipe executora. Devem abranger desde a educação continuada dos profissionais, a monitorização do consumo global dos antimicrobianos, podendo incluir a restrição ao uso de determinadas medicações indutoras de resistência microbiana. Todos os programas de uso racional dos antimicrobianos em hospitais deveriam ser avaliados em relação à sua eficácia através da utilização de indicadores específicos mensurados continuamente ou a intervalos de tempo pré-estabelecidos. De forma geral, esses indicadores são: padrões de prescrição; custos hospitalares; resposta clínica; resistência microbiana.

O potencial individual de cada antimicrobiano em induzir resistência e as variações no tempo de tratamento e nas dosagens é mais importante para o desenvolvimento de resistência do que o consumo global dos mesmos.

Prescrição de antimicrobianos - Uso racional de antimicrobianos.

Estratégias para a racionalização do uso dos antimicrobianos. A seguir, descreveremos as principais sugestões em voga para estratégias de intervenção e, ao final de cada uma delas, conforme o grau de evidência científica (reveja aqui no Quadro 2), apontaremos as recomendações recentemente emitidas pela Infectious Diseases Society of America (IDSA) e pela Healthcare Epidemiology of América (SHEA).

Prescrição de antimicrobianos - Uso racional de antimicrobianos.

Estratégias para a racionalização do uso dos antimicrobianos.

Educação continuada e protocolos clínicos.

Em função do pouco tempo dedicado ao estudo dos antimicrobianos, na maioria das universidades, os médicos muitas vezes realizam prescrição baseados em informações de colegas, de manuais de consulta rápida e propagandas da indústria farmacêutica, o que não garante práticas de prescrição adequadas. Nesse contexto, as várias formas de educação continuada assumem importante papel no uso racional dos antimicrobianos, considerando-se que as atividades que promovem o contato direto com o médico prescritor são mais eficientes do que aquelas relacionadas à divulgação de informativos escritos. Dentre os temas a serem discutidos, é fundamental a abordagem daqueles que, com maior freqüência, constituem erros de prescrição. A construção de protocolos institucionais, em especial com a co-participação e o envolvimento do corpo clínico, tem contribuído para a melhoria de diversos indicadores, entre eles: a adequação da terapia empírica, a duração do tratamento, o tempo de medicação endovenosa, o tempo de permanência intra-hospitalar e a redução dos custos dos antimicrobianos. É importante lembrar que os protocolos para tratamento de infecções hospitalares deverão incorporar o perfil microbiológico institucional (consultar o laboratório de microbiologia ou a Comissão de Controle de Infecção Hospitalar - CCIH), inclusive por setor específico, para elevar o percentual de acertos da antibioticoterapia empírica. Vale ressaltar que estes perfis deverão ser revistos periodicamente (em 6 a 12 meses), em função das constantes mudanças na microbiota hospitalar. Além disso, para melhorar a adesão do corpo clínico, protocolos publicados por sociedades nacionais, quando adotados instituição, poderão sofrer mudanças para adaptação à realidade local. Vale lembrar que estratégias educacionais implementadas isoladamente, sem a incorporação de intervenções ativas (ex: restrição de drogas), serão efetivas apenas em parte, com resultados em geral insatisfatórios.

RECOMENDAÇÕES.         

Educação é essencial como parte de qualquer programa de uso racional de antimicrobianos e poderá prover conhecimentos úteis para a obtenção de melhores resultados e de sua aceitação pelo corpo clínico.

Prescrição de antimicrobianos.

Uso racional de antimicrobianos - Estratégias para a racionalização do uso dos antimicrobianos.

Rotação de antimicrobianos.

Refere-se à remoção ou substituição de um determinado antimicrobiano ou classe de antimicrobiano em intervalos pré-definidos de tempo para prevenir ou reverter o desenvolvimento de resistência em uma instituição ou unidade específica (geralmente UTI’s). Após alguns ciclos com outros antimicrobianos, a medicação inicial é retomada. O objetivo primordial desta estratégia é reduzir a pressão seletiva de uma única droga sobre a microbiota local. Os estudos de rotação de antimicrobianos são escassos e variam em relação à escolha das classes de drogas, à duração da rotação e à forma de ciclagem (por tempo ou por paciente). De acordo com os dados atualmente disponíveis, a substituição de um antimicrobiano por outro pode, transitoriamente, reduzir a pressão seletiva e preservar a efetividade do agente substituído. Entretanto, a menos que os genes de resistência sejam eliminados da população bacteriana, a reintrodução da droga original é suficiente para selecionar os determinantes de resistência na população bacteriana exposta. Estudos recentes utilizando modelos matemáticos complexos sugerem que a rotação de antimicrobianos é improvável para reduzir a evolução ou a disseminação de resistência. Ao contrário, indicam que o uso simultâneo de diferentes classes de antimicrobianos poderá, de forma mais eficiente, reduzir este problema. Novas pesquisas serão necessárias para o melhor esclarecimento dos possíveis benefícios de cada uma destas estratégias.

RECOMENDAÇÕES.

Os dados disponíveis são insuficiente para recomendar, em caráter rotineiro o uso cíclico dos antimicrobianos como estratégia de redução ou prevenção de resistência durante prolongados períodos de tempo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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